viernes, 16 de marzo de 2007

A CONSCIÊNCIA DA CULTURA


A consciência é uma conseqüência da convivência social onde se produz a cultura. Por sua vez, a cultura é a abrangência do pensar e fazer ao mesmo tempo para, produzir a existência social.
A consciência é por natureza um fenômeno social. Tendo em vista que ela se forma no processo de trabalho, logo, sem ele, é impossível evoluir na formação da consciência, e as pessoas não serão livres, enquanto livremente puderem trabalhar.
Mas há culturas conscientes e culturas alienadas. A consciente tem noção do porque existe; a alienada não tem, nem porque nem para que existe. Por isso se torna fácil manipular as pessoas através do fenômeno da “cultura de massas”.
Não pode haver libertação cultural se não houver consciência cultural. Os aspectos que constróem a consciência, vivem lado a lado com os aspectos que “destróem” a consciência.
Entender a realidade e entender-se dentro dela, é a forma correta de discutir os problemas e as soluções, para construir novos seres humanos.
Dizemos isso, porque não basta ter e fazer cultura, é preciso compreender-se dentro dela, para evoluir sem deformações. Por isso a cultura tem consciência, que se forma a partir da convivência social e se complementa com o domínio do conhecimento científico, da filosofia, e da arte.
Por muito tempo existiram a ciência natural e o mito. Ou seja, havia uma compreensão intuitiva da realidade e, portanto, espontânea, da vida e dos fenômenos. Tudo era compreendido pela própria experiência, orientada pela imaginação. Sua função era acalmar e acomodar os seres humanos tementes aos fenômenos que se tornavam inexplicáveis.
A cultura por sua vez se desenvolveu baseada neste fazer combinado com as necessidades, sem condições de elevar a consciência para um nível mais crítico, por deficiência do conhecimento, arrastou-se através dos milênios da formação da existência humana, a “espera” do surgimento da ciência para melhor compreender-se.
Da mesma forma a filosofia. Não tendo condições de comprovar “cientificamente” as questões, (a idéia tinha supremacia sobre a prática), e a imaginação dominava a definição das coisas e se tronavam inexplicáveis.
Não podia ser diferente com a arte. As habilidades e a imaginação motivaram o seu desenvolvimento espontâneo, de acordo com as interpretações da realidade de cada época.
Com o desenvolvimento da ciência, sem retirar o aspecto intuitivo e imaginativo da filosofia e da arte, avançou-se através do aspecto da comprovação, para que o mito perdesse seu posto de comando para o conhecimento, e a consciência surgiu como produto do conhecimento e deu identidade aos aspectos que compõe a construção da existência humana.
Há portanto, consciência individual como produto da convivência social, por isso a consciência em uma sociedade de classes tem o caráter de classe, porque cada um educa seus descendentes de acordo com a sua posição social. Influindo na mudança de pensamento pela ideologia, como instrumento de relação direta com a consciência.
Este texto visa resgatar os aspectos fundamentais da filosofia que trata da consciência, relacionando este conhecimento com a ciência e a arte e mais propriamente, com alguns aspectos da vida cotidiana de nossa organização. Sem dúvida nenhuma estas três áreas do conhecimentos ( ciência, filosofia e arte) são os pedestais que se combinam para a construção e fortalecimento de nosso movimento.

O QUE É A CONSCIÊNCIA?
Esta questão, levou muitos séculos para ser respondida.
Com o surgimento do materialismo histórico e dialético, se conseguiu definir adequadamente o que é a consciência. Ela “ deriva da matéria e é uma das manifestações específicas da forma social do movimento da matéria”.
A ciência concluiu que o órgão do pensamento é o cérebro com 14 milhões de células ligadas umas com as outras. O cérebro portanto é matéria. Mas nem toda matéria tem capacidade de raciocinar. Destruindo as células o cérebro não pensa. Quando o corpo morre, morre também o pensamento e a consciência.
Os antigos filósofos confundiam a consciência com a alma. Admitiam que a consciência tem uma parte material mas outra espiritual e esta última derivava de Deus.
Temos vários aspectos para descrever e fundamentar o que é a consciência:

1 – ORIGEM E ESSÊNCIA DA CONSCIÊNCIA
1o – As Origens
O surgimento da consciência foi condicionado por duas premissas básicas: Naturais e Sociais.
a) Naturais - A matéria tem capacidade de refletir, por isso a primeira manifestação da consciência é o reflexo
Reflexo – É a capacidade que a matéria tem de refletir em si, as qualidades de outros objetos. Exemplo de reflexos simples: os rastros na areia. A sombra da árvore no rio. Há porém mesmo na natureza, possibilidades dos reflexos ser mais complexo pela excitabilidade, ou pela capacidade dos objetos se movimentarem, como: o girassol que segue os movimentos do sol, as flores “onze horas” que desabrocham naquele horário.
Há também organismos vivos que possuem formas mais desenvolvidas de reflexo como: o cachorro, o papagaio, o macaco etc. Isto ocorre pelas sensações e percepções. Estes animais são dotados de um raciocínio primitivo, mas não vão além disso.
b) Sociais – O seres humanos sendo originários dos animais, foram forçados por catástrofes e, certamente por uma “crise ecológica” intensa, a adaptar o organismo, ás diferentes condições climáticas.
O homem, ao longo dos tempos, se diferenciou dos outros animais pela capacidade do trabalho. “Foi o trabalho quem criou o homem” . Isso permitiu a ele escapar da crise ecológica. Dessa forma, aprendeu com os instrumentos de trabalho, transformar a natureza e transformar-se a si próprio.
Como surgiu então a consciência?
Juntando as duas premissas “naturais e sociais”, vejamos: para encontrar um objeto na natureza, basta o reflexo, exemplo: uma raiz de mandioca. Para descobrir o que há dentro dela e saber do que se compõe, precisa refletir no cérebro. Mas esta reflexão pode parar nos aspectos essenciais como: cor, gosto, dureza etc. como fazem os animais.
O pensamento abstrato ( imaginação) se desenvolveu quando o ser humano precisou ligar á necessidade com o objeto necessário para sua satisfação através do trabalho. O instrumento não satisfaz a necessidade, mas é o meio para solucioná-lo. Por isso o instrumento dá qualidade ao objeto que antes não tinha. Uma vara usada para derrubar frutas, a pedra que se transforma em machado ou a madeira que se transforma em mesa pela ajuda das ferramentas.
Daí surge a coletividade do trabalho. Onde se faz a divisão de tarefas.
Como este trabalho coletivo exige coordenação das ações, necessita-se da linguagem para se comunicar dando nome aos movimentos e aos objetos.

2o – A Essência
A consciência é a propriedade que o cérebro tem de refletir o mundo material. Por isso tem algo ideal que existe na imaginação. Portanto, a consciência está ligada á matéria, mas não é apenas reflexo dela, contém um aspecto ideal que é a imaginação.
Neste aspecto ideal, a consciência está ligada à matéria, mas pelo pensamento pode diferenciar-se dela, imaginando algo que ainda não existe ou criando lugares imaginários ao ouvir um relato de viagens comparando intuitivamente com outros lugares.
O caráter ideal da consciência foi criado pelo trabalho. Por isso ela tem a capacidade de refletir coisas que não são percebidas pelos sentidos, como os animais. Por esta percepção que antecede à transformação da matéria em objetos, se forma consciência é ideal.
Exemplo – No trabalho quando se usa um objeto como instrumento de trabalho será considerado como tal enquanto se usa – por causa do pensamento abstrato - ou seja formas mentais do papel, função do instrumento. Assim desenvolvemos a capacidade de inventar os objetos mas também os instrumentos de produzi-los.
Logo, no processo de trabalho, surgem realidades que fora dele não existem. Como um pau usado para derrubar frutas, após a colheita das frutas ele deixa de ser instrumento e volta a ser pau. Nisto se forma a noção na consciência, para que serve tal objeto, mas poderá servir para outro fim ou para nenhum.
No início a noções ideais sumiam, logo após o uso do objeto. Com o decorrer do tempo, permanecendo as necessidades, através do trabalho, estas noções foram se fixando no cérebro. Com isso se desenvolveu o processo da formação da consciência humana.
Hoje todas as invenções são relações materializadas entre homens e natureza. Mas fora do processo de trabalho e sem fixação na consciência, para que serve um computador por exemplo? Não passa para o analfabeto de uma caixa de lata. É o mesmo que um animal olhar o computador. Tem a mesma serventia para ambos.
O trabalho amplia a esfera ideal, por isso as formas mentais se desenvolvem neste processo. Os instrumentos conduzem o pensamento do homem, porque eles são a ligação entre o homem o objeto sendo produzido.
A natureza das formas de pensamento, reflete a essência das coisas que estão vinculadas á natureza dos instrumentos. Uma lente microscópica permite enxergar mais que a lente dos óculos. Quem tem apenas os óculos, pensará que a verdade é apenas aquilo que ele enxerga.
O instrumento tem um caráter generalizado. Serve para um determinado fim, mas pode servir para fins parecidos. Entram aí dois elementos, em que o particular é percebido pelos sentimentos, e o geral pelos pensamentos. O pensamento abrange o geral e o particular, extraindo, abstraindo e criando, neste sentido o geral é ideal.
O geral não pode ser reproduzido materialmente, deixaria de ser, o único meio de manifestá-lo é a palavra.
As formas do pensamento são ideais por que representam, não o reflexo individual do mundo, mas sim o reflexo social.

2 – NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA.
O ponto de partida para entender os níveis de consciência é tomar como referência a tese filosófica de que: “A consciência social é fruto da convivência social”. Ela é a expressão de um determinado grupo social, que trabalha, se relaciona, tem sentimentos, imaginação, idéias, teorias, normas, valores etc. Portanto, a consciência existe a partir das relações sociais que se estabelecem para desenvolver a existência do indivíduo e da sociedade.
Neste sentido a consciência social se subdivide em dois níveis: Inferior e superior ou natural e política, ou ainda, social e científica. Fiquemos com a primeira definição ( inferior e superior) para melhor desenvolver o raciocínio.

· O nível inferior - é aquele que se desenvolve junto com o ser humano a partir dos próprios experimentos e descobertas que as próprias necessidades vitais exigem. Ou seja, este nível forma-se a partir das relações sociais que se estabelecem, onde o ser social afirma seu caráter e sua identidade social. Desenvolve hábitos, costumes, conhecimentos, práticas etc. Fazendo e refazendo os mesmos gestos, produz sua existência e tem consciência dela a partir do que vê, conhece e sente.
As funções do nível inferior da consciência é refletir sobre o cotidiano, os planos imediatos, os problemas das relações imediatas, dos hábitos, comportamentos e valores que a própria tradição reproduz. Geralmente isto é repassado oralmente de geração em geração, sendo o reflexo da cultura popular.

· O nível superior - é aquele que ultrapassa o nível do conhecimento natural. Tem condições de medir e qualificar o conhecimento.
Na luta política se vincula a uma causa. É o nível da elaboração, aprofundamento e definição de planos, que vão além dos objetivos imediatos. Consegue criticar e estabelecer alianças com outros setores da sociedade para a busca coletiva da solução dos problemas por isso, este nível é também conhecido como político ideológico. Formado pela influência exterior.
Ambos os níveis estão vinculados à cultura. O primeiro reproduz a cultura espontaneamente e, avança quando as necessidades exigem. O segundo nível, procura direcionar a produção da cultura nos aspectos que ultrapassam a esfera natural do cotidiano. Transforma-se em extraordinário, como disse o Che: “Quando o extraordinário se torna cotidiano, é a revolução”
A ciência se torna cultura e faz a cultura se tornar consciente.
A consciência neste estágio se impregna de conteúdo ideológico, que se alimenta através dos signos.
Os signos cumprem a função de tornar os objetos em símbolos materiais com outro conteúdo, como por exemplo: a foice e o martelo deixam de ser instrumentos de trabalho e se convertem em símbolos do socialismo e portanto consciência no nível superior.
Este nível de consciência depende de: a) conhecimento ( particular e universal), b) organização com princípios ( unidade ideológica, democracia interna, política de alianças, formação e propaganda etc.) c) planejamento e execução de ações, ( análise, decisão, definição de metas, busca de recursos materiais e humanos e distribuição de tarefas) d) elaboração de métodos ( Linhas de ação; manutenção das ações; resistência e continuidade) e) avaliações ( interpretar o que foi feito e traçar o que falta ainda fazer)
Aplicando os conceitos à nossa realidade vemos que:
a) O nível inferior – são todos os conhecimentos e práticas que temos como seres sociais: preparar a terra, cuidar da casa, possuir e cuidar dos animais, ir à escola etc. Em função de novos conhecimentos vamos mecanizando a produção, melhorando as moradias, evoluindo no processo de produção e de convivência social. É enfim, a maneira como construímos a existência social.
Assimilamos também – elementos negativos que se tornam consciência – como desmatar, queimar, envenenar, bater nos filhos, subordinar ente-queridos, músicas e danças deformadas etc.
b) O nível superior – são os elementos da luta política, percebendo o que está mais além da realidade imediata, desperta a capacidade de fazer análises, alianças políticas, combate consciente ás injustiças etc.
Assimilamos também – elementos negativos, como o sectarismo, auto-suficiência, discriminação da mulher, métodos autoritários, concepções equivocadas, enfim: contradições profundas entre prática e pensamento, concepções e comportamentos.
Quando se fala em “revolução cultural” quer-se buscar formas de fazer a consciência nos seus dois níveis, refletir sobre a realidade e transformá-la a partir do reconhecimento dos erros e desvios.

3 – FORMAS DA CONSCIÊNCIA
As formas da consciência se diferenciam de acordo com as particularidades dos elementos que estruturam a vida social e política.
Desta maneira a consciência nos seus dois níveis, adquire diferentes formas de expressão. Para nosso estudo aplicado, citaremos algumas:
a) Consciência Jurídica
É a teoria do direito que expressa os interesses de uma classe. Por isso elaboram as leis que regulamentam estes interesses.
A consciência jurídica tanto pode estar ligada à obediência quanto a desobediência às leis.
Há situações em que as leis são impostas e as pessoas aceitam sem objeção porque temem desrespeitá-las. Em outros momentos as leis são desobedecidas pelo fato de as vítimas sentirem que estão sendo desrespeitadas.
Esta duplicidade de comportamento acontece por se manter ou mudar o ser social. Havendo mudança do ser social há mudança da consciência jurídica.
Há elementos que determinam as normas jurídicas porque determinam também o ser social, como: propriedade privada, matrimônio, impostos.
A consciência jurídica induz o ser social a cumprir com o dever social, estabelecido pelo senso comum criado.
O direito de rebelar-se pode significar também o dever de submeter-se. Exemplo: a mulher apanha do marido, mas não pede o divórcio porque a lei constitucional e moral defendem o casamento, e por isso, a consciência jurídica aceita o “direito” que o homem tem em bater na mulher.
O direito por tanto, consolida a igualdade ou a desigualdade na convivência social.
É difícil mudar a consciência jurídica tomando como referência apenas um aspecto do direito. As pessoas desenvolvem a consciência jurídica na atividade coletiva, na compreensão da composição das estruturas sociais e na luta pela sua destruição. O poder da estrutura do Estado, sobre a sociedade, é o poder da estrutura familiar sobre seus componentes. Mudando a estrutura do Estado, mudam as relações em todos os espaços de convivência social.

b) A consciência Moral
Moral vem de “Mores” ( Latim) “costumes”. A moral é então a norma que orienta o comportamento social e tornando-se costume.
Devemos acrescentar mais dois elementos a esta discussão que são: a ética e os valores. Ética é o juízo que fazemos de cada situação, se está certo ou errado, se é bom ou mau fazer determinadas coisas. Os valores, é aquilo que move as pessoas conscientemente para defender e implementar a ética e a moral.
Um exemplo concreto para analisar. Um grupo ocupa uma fazenda que tinha a placa: “não entre”, e instala o acampamento, conquista a terra, divide os lotes e desenvolve a produção, usando agrotóxico. Como se aplica a moral, a ética e os valores?
A norma moral é que: “Toda terra improdutiva, não cumpre função social”, por isso está certo ocupar, é a ética. Mas ao dividir os lotes se institui novamente a propriedade privada ( individualismo) e se polui a terra com venenos ( violência contra a vida) se manifesta a perda de valores.
Através do nível inferior de consciência, se constitui o comportamento moral cotidiano na sociedade, estabelecendo normas de convivência sem serem escritas. A consciência da ética e dos valores, fazem refletir se está certo ou errado determinados comportamentos. Quando a sociedade ou as instituições perdem as condições de concertar os próprios desequilíbrios, acontece a perda da ética e dos valores.
Na medida em que muda as formas de produzir a existência social, muda também a consciência moral. Por isso a consciência moral, tem caráter histórico, ou seja, muda de acordo com as transformações sociais.
Na história da humanidade a lei esteve sempre vinculada a do Estado e a moral, ficou mais ligada à religião.
Quando há divergência entre as duas instituições surgem um conflito. Exemplo a lei que regulamenta a união de homossexuais. A Igreja é contra, por que moralmente não concorda, assim a lei tem dificuldades em ser instituída.
c) A consciência Estética.
A consciência estética é composta por pensamentos, sonhos, sentimentos, gostos, interesses etc. É a faculdade de sentir que uma pessoa ou sociedade tem.
Este sentimento da beleza, das cores, traços e formas que se dão aos objetos com suas características belas, ou feias, altas ou baixas, alegres ou tristes etc. é esta capacidade que um ser humano tem de avaliar observando com a consciência.
A consciência estética então é a expressão do ser social manifestando verdadeiramente quem ele é e que papel cumpre na sociedade.
O desenvolvimento das habilidades na construção do belo seja, na música, pintura, escultura, arquitetura ou teatro transformam o ser humano em artistas.
A consciência estética ou a falta dela imprime suas características á cultura. Ela tem a capacidade de interligar as partes ou então de isolá-las.
Exemplo: pode ter alguém que se empenhe muito com a estética da roça, mas não tenha preocupação alguma com o quintal da casa. A mulher pode ter muito cuidado com a arrumação da casa, mas nenhum cuidado sobre si mesma. São deficiências na formação da consciência estética que vê as coisas e os aspectos uns isolados dos outros.
A arte no MST através da música, cavou o seu espaço e se acomodou, porque os artistas deixaram de perceber as mudanças internas e se tornaram parte comum da realidade. A expressão ideológica da música, foi ultrapassada pela ideologia da organização, por isso a arte ( música) deixou de ser a reflexão da realidade ( no sentido material e espiritual) que reproduza o mundo sentimental e estético da organização. Por isso que, para uma parte da militância, letras com uma simples mensagem, não diz mais nada. As demais áreas do conhecimento e da prática ainda faltam cavar seu espaço.
Pode haver situações em que até se perceba as diferenças, mas não há preocupação em modificar.

d) Consciência organizativa
Esta se manifesta na capacidade que os seres sociais têm de colocar as idéias em prática. É possível desenvolver muitos conhecimentos mas estes permanecerem na esfera da teoria.
A consciência organizativa dá forma e conteúdo às potencialidades organizativas, para torná-las eficientes.
Muitas idéias são boas, mas se a consciência que pensa não arranja a forma de implementá-las, estas se perdem.
Nem sempre as idéias são ruins. Tornam-se ruins por falta de formas adequadas para seu desenvolvimento.
Uma organização como o MST, precisa de uma teoria da organização que contemple todos os aspectos teóricos e práticos, para que se desenvolva uniformemente.
Pensar o MST é preocupar-se com sua organicidade, onde os aspectos diversos se interligam para fortalecer os objetivos estratégicos.
A militância deve ser formada para isso. Os dirigentes que não percebem e não se qualificam para atuar e dirigir os diferentes aspectos, causam mal à organização e ficam sempre atrás da conjuntura.
Por isso não basta um setor preocupar-se com o seu específico, se não se preocupar com a saúde, formação, educação, estética, etc.
e) Consciência Ecológica
A ecologia deixou de ser um problema de entidades ambientalistas, passou ser um problema da humanidade.
Fala-se em “ecocídio” e “biocídio” onde se está exterminando as possibilidades ambientais para que as futuras gerações possam produzir sua existência. Por falta da forma ecológica da consciência, passou-se a desenvolver a cultura da devastação.
Esta cultura comprova que, as ameaças não vem de forças externas, mas da própria atividade humana descompromissada com o futuro.
Por isso é importante desenvolver a consciência ecológica, em torno daquilo que nos liga, pelo bem e pelo mal à natureza.
O ser humano é o único animal que destrói além daquilo que precisa para comer e viver. Mas também é o único que, ( se quiser) pode replantar e ajudar as demais espécies a se reproduzirem.
Há espécies que desaparecem por contradições vitais da própria raça. Mas há um extermínio de 10 espécies por dia, e alguns cientistas já dizem, que será extinta a curto prazo, uma espécie por hora.
Enfim, poderíamos continuar descrevendo outras formas de consciência como: filosófica, ideológica, agronômica, religiosa, pedagógica etc. mas fiquemos por aqui. Isto demonstra que há especificidades na consciência, porque há múltiplas formas de se manifestar a cultura humana.

4 – OS MOMENTOS DA CONSCIÊNCIA

Encontramos também na filosofia outra particularidade da consciência, que são os momentos.
A consciência é o conjunto de seus momentos: conhecimentos, auto-consciência, emoções, imaginação e vontade.
Esses momentos se manifestaram cada qual a seu tempo durante o desenvolvimento da produção da existência da humanidade, mas se combinam na produção da cultura na atualidade.
a) Conhecimento
O conhecimento é a relação que a consciência tem com as coisas. Conhecer é apropriar-se da matéria ou dos aspectos subjetivos e transformar isso em explicações coerentes e praticas eficientes.
A consciência não existe se não existir nenhum conhecimento.
Quanto maior conhecimento, menor será a ignorância. Embora nunca se conheça tudo na totalidade.
Para nossas análises é preciso avaliar o que conhecemos. Como usamos o conhecimento e que importância tem ele para nossa vida.
Algumas questões:
- O que conhecem os homens e mulheres de seu próprio corpo, de sua própria história de sua própria comunidade?
- Que críticas fazem ao sistema dominante?
- Que criticas fazem ás relações humanas onde vivem?
- O que sabem sobre os objetivos que a organização lhes propõe?
b) Auto-consciência
A autoconsciência ou a consciência de si e para si, contribui para que o indivíduo se compreenda e descubra de fato qual é sua função social.
A autoconsciência possibilita, cada ser social buscar a autonomia em relação ás opiniões e posições que deve tomar. O militante se orienta por conta própria.
A autonomia se confunde com convicção, porque sabe a razão de contribuir.
A autoconsciência é também auto-estima, gostar de si e fazer da vida uma tarefa a mais a ser cumprida, por isso é preciso mantê-la e preservá-la.
Algumas questões:
- Que juízo as pessoas fazem de si em nossa base?
- Como está a auto-estima? As pessoas gostam de si mesmas?
- Como está o cuidado com a vida?
c) Emoções
O ser humano tem a capacidade de sentir prazer, indignação, amor, repulsa, ódio e também simpatia, de acordo com o conhecimento que tem do mundo e da visão que tem de seu papel. São manifestações da consciência enquanto momento. Mas isto influi na vida cotidiana.
As descobertas precisam de emoções para que sejam valorizadas. A frieza não comemora os inventos. As emoções fazem comemorar.
Buscamos no que fazemos a perfeição, porque queremos ser mais perfeitos.
As emoções vêm do reconhecimento coletivo pelo esforço empregado, mas também pela satisfação individual, pelo serviço feito.
Emocionar-se é o mesmo que sentir-se presente, parte de algo que valeu a pena ter feito.
As emoções de quem faz, são diferentes daquele que nada faz.
Questões:
- O que realiza nossa base causa emoções?
- O trabalho e a convivência são gratificantes ou um peso a ser carregado?
- Na relação familiar a mulher sente as mesmas emoções que o homem, ou cada qual cuida de si?
d) Imaginação
Os objetos são feitos a partir da imagem que se faz deles antes de iniciar sua confecção. Esta capacidade de imaginar está em todos os seres humanos.
A imaginação tem a capacidade de antecipar aquilo que ainda não existe, mas que pode ser construído.
A classe dominante quando quer enganar, faz com que as pessoas imaginem o que ela imaginou primeiro, por isso substitui o sujeito do próprio sonho.
Ë fundamental desenvolver a capacidade de imaginar o futuro e o que queremos construir nele. Ninguém consegue fazer algo, se não conseguir vislumbrar a imagem de como será.
Esta combinação deve se dar entre dirigentes e massa. A imaginação de um não pode prejudicar a imaginação do outro.
Questões:
- O que imagina sobre o futuro nossa base? Que interesses manifesta nessa imaginação?
- Em meio a tantas crises, como manter a motivação de imaginar?
- Que autonomia tem uma família de imaginar o seu futuro em relação à casa, o lote, o trabalho, a religião?
- O que se imagina no campo da arte e como se manifesta esta imaginação?
-
e) Vontade
A vontade é a capacidade do ser humano de mover todas as forças e colocá-las a serviço de um objetivo comum.
A vontade de buscar é também a vontade de realizar-se, enquanto ser humanos, por isso as expectativas são diferentes.
A vontade move a teimosia e esta organiza a resistência. Ao mesmo tempo que a vontade motiva a ir além pode desmotivar para retroceder. Por isso é preciso ter claro o que se quer alcançar para que não haja frustrações.
Questões:
- Como está a vontade de lutar de nossa base?
- Até onde pretende ir nossa Base? E o que quer fazer quando lá chegar?
- Os pais tem a mesma vontade que os filhos? Como se combinam e descombinam as vontades em nossa base?

5 ALIENAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
Há porém um processo que leva a alienação da consciência e a dominação, onde o ser humano se deixa dominar pela sua própria obra criada ou pela obra criada por seus semelhantes.
Isto ocorre porque, na vontade de explicar o desconhecido, os seres humanos formulam explicações e se tornam escravas da própria ignorância. Ao imaginar algo com características próprias, se submetem a ele como se existisse de fato esta realidade, e se acomodam esquecendo-se que é sua própria criação que os domina.
Após a criação desta obra, os seres humanos se separam dela e não se reconhecem na obra criada, sendo esta, independente e superior a força humana.
Sendo assim os seres sociais fazem a sociedade e perdem o controle sobre ela, tornando-se vítimas da própria criação, e aceitam pacificamente seu funcionamento.
Os seres humanos criaram a propriedade privada e tornaram-se vítimas dela, por não poder limitar a quantidade de seu uso. Elegem os governantes e tornam-se vítimas deles. Criam instituições de todos os tipos com leis, normas e valores e tornam-se vítimas delas. Mas lhes dão legitimidade por acreditar na sua superioridade e, assim, se tornam obedientes.
Na filosofia materialista aparece clara esta divisão: divisão sexual e social do trabalho, divisão social das riquezas, divisão social das trocas, divisão social do poder econômico, político, militar e religioso. Também há a divisão social do saber. Surgem portanto as classes sociais, onde uma tem mais poder que as outras.
Ocorre então a alienação de uma parte da sociedade pois não compreende como funciona a sociedade que ela ajuda a manter e acaba se submetendo as normas estabelecidas porque o poder temporal lhes oprime no presente, e o poder espiritual promete lhes punir no futuro.
Existem vários tipos de alienação. Destacamos três Social e política, econômica e intelectual.
1o - A alienação social e política acontece quando os seres humanos não se reconhecem como produtores das instituições, e se comportam dubiamente: ou aceitam passivamente tudo o que existe por ser natural ou divino, ou se rebelam individualmente julgando que podem mais que a própria realidade. Isto pode ocorrer também se a estrutura social foi criada para outros fins.
As formas organizativas, podem alienar as massas como as estruturas sociais alienam. A estrutura social deve estar a serviço da sociedade mas para que isso aconteça deve ser apropriada por ela. A delegação de poderes é o primeiro sintoma de que uma grande maioria participará menos.
As estruturas não podem ser estáticas. Quando isso acontece se burocratizam. A delegação de poderes possibilita a diferenciação entre os membros da mesma organização. Hierarquiza-se para que alguns possam ter mais poder que outros. Não se pode querer porém que se tenha uma organização anárquica, sem instâncias e coordenações, mas é preciso saber como participam àqueles que ficam fora dessas esferas? Que discussões fazem e que decisões tomam?
A produção da organização é também a produção de seu organizador. Um não cresce sem o outro. Quando uma organização forma poucos quadros, é sinal que está se burocratizando e que a estrutura e a teoria dessa organização está sendo assimilada por pouca gente. Mesmo sendo um movimento de massas, a grande maioria está alienada da organização, participa dela mas não sabe como se compõe nem o que pretende alcançar. Com o tempo vem o cansaço acomodação e a desistência. A mística foi embora.
2o - A alienação econômica acontece quando os produtores não se reconhecem como tal, nem como condição, nem pelos objetos produzidos. Justamente porque da forma como se relacionam com a produção, os trabalhadores são uma mercadoria que produz outra mercadoria de outro gênero, com preço diferente, que ninguém se preocupa pela sua origem. Os trabalhadores percebem que produzem coisas, mas sentem que estas não lhes pertence pela lógica do sistema de produção.
Na medida em que, a alienação econômica deve ser rejeitada, é preciso buscar formas de compreender as contradições da matriz produtiva, que está na consciência social das pessoas. Este aprendizado vem a partir da convivência com os objetos.
Há por exemplo uma preocupação muito grande com a propriedade privada da terra e precisamos respeitar conscientemente esta vontade. Há no imaginário familiar que a organização fundiária é a grande fazenda ou o pequeno sítio. O capitalismo não desenvolveu ainda grandes propriedades cooperadas. Os trabalhadores assalariados na grande maioria das atividades, são sazonais e, se diferenciam dos operários porque podem ser substituídos a qualquer momento. Por isso que, a primeira coisa após a liberação da terra, é dividi-la em lotes. Soma-se a isso a visão do uso da mão de obra familiar de forma independente.
O problema não está nestes aspectos da propriedade, do trabalho e da moradia, mas sim na compreensão de que é preciso organizar a convivência social a partir desta realidade que, ajude no melhoramento das condições de vida, na elevação do nível de consciência e no fortalecimento da mística.
Por isso não basta teorizar sobre a destruição da natureza pelas derrubadas e queimadas, ou fazer longos discursos sobre envenenamento da terra, dos rios e das pessoas, se lentamente não for colocado para substituir na consciência social os elementos que possuam a equivalência, mas com valores diferentes.
3o - A alienação do pensamento, ocorre pela separação entre trabalho físico e trabalho intelectual. Muitos militantes passam a acreditar que o trabalho prático não depende de conhecimento, as idéias e o conhecimento é tarefa de quem estuda. Não percebem que as idéias são reflexos das coisas e das relações existentes na sociedade em que vivem, e que devem ser usadas para explicar esta mesma realidade, com o intuito de transformá-la. As idéias não criam a realidade, ao contrário, são criadas por ela, por isso quem transforma a realidade transforma também a ignorância em conhecimento. Não pode haver separação entre pensar e fazer.
Na relação da formação da consciência, através da organização dos Sem Terra, há que entender que a espontaneidade não pode elevar o nível de consciência, apenas pode levar a um sentimento de revolta, mas sem condições de estabelecer uma clara relação entre as causas e os efeitos dos problemas.
É preciso planejar a formação da consciência a partir de diretrizes e métodos corretos que invertam as formas de alienação, para não incorrer no risco da alienação, agora com identidade popular.
O pensamento evolui na medida em que a prática evolui. As necessidades provocam os conhecimentos, para que se transforme em idéias e práticas.
Elabora-se mais, quando as condições de crescimento são favoráveis. Em muitos casos as idéias não vingam, porque a prática está deficiente.

6 – QUALIDADES ORGANIZATIVAS DA CONSCIÊNCIA
A consciência por sua vez depende de qualidades. Destacamos algumas delas a seguir:
a) Capacidade de liderança
Nenhuma liderança nasce pronta, tem apenas aptidões e potencial para isto.
De nada vale ter aptidões se não houver empenho para fazer com que sejam cultivadas e se desenvolvam. É através do exercício do fazer que se vai manejando e eliminando as deficiências para deixar brotar novas habilidades.
Na política de formação da consciência é que se estabelece esta orientação, invertendo a lógica tradicional. Onde primeiro se buscava estudar e aprofundar todos os aspectos teóricos, e posteriormente, através do manual de disciplina, tentava-se moldar a liderança e o comportamento das massas, o resultado acabava sempre como a tentativa de fazer desenhos nas águas do mar.
Este equívoco teoricista e determinista, não contribui para a verdadeira formação da consciência. A teoria, assim como as normas, é a parte mais simples e rápida para ser assimilada. Muitas vezes em uma conferência aprende-se o que os escritores levaram meses e anos para escrever. A dificuldade maior é forjar o caráter e a conduta da liderança e da maioria das pessoas que formam a organização.
Mal comparando, podemos dizer que as teorias que assimilamos, são descobertas que outros fizeram, através do esforço próprio, e formam a experiência de quem as elaborou; enquanto que, o caráter e a conduta deve ser produto de nosso próprio esforço, e portanto, fruto de nossa própria experiência. O pássaro aprende a voar não apenas pelo incentivo da mãe, que o força a sair do ninho, mas nas tentativas que faz ao mover as asas.
O aperfeiçoamento das qualidades particulares de uma liderança, irá se dando no fazer e refletir. Ela própria irá descobrindo o melhor jeito de planejar e encaminhar as soluções dos problemas. Mas a organização tem por obrigação orientá-la para que se mantenha na direção correta, como faz o jardineiro que escora e levanta a cabeça das plantinhas, para que cresçam verticalmente sem tomar o espaço das outras que crescem horizontalmente.
Embora o jardineiro oriente as plantas a crescerem verticalmente, estas liberam as raízes que as mantém em pé, para que se desenvolvam sob a terra, buscando o incentivo e a energia que precisam para tornarem-se sempre mais fortes.
Não importa entender as infinitas relações que as raízes da árvore mantém com a terra, porque se dão de forma oculta, importa entender que sem estas relações a árvore morre. Como nossas lideranças, sem fixar as raízes na terra, perdem o vigor.
Esta compreensão fez com que, na história do MST, se desenvolve-se um profundo respeito pela vontade de cada ser humano, seja na forma de trabalhar a terra, de construir e morar em sua casa, seja na participação das lutas. O diálogo sempre prevaleceu para que, sem quebrar com a unidade interna, se pudesse chegar a decisões mais corretas.

b) Decidir corretamente
A capacidade de decidir também não se adquire nos cursos apenas. É um
exercício que jamais termina. Nos cursos assimila-se a teoria do método que facilita o desenvolvimento desta capacidade. Mas só isto não basta, é preciso diariamente dar conta das responsabilidades, para que isto ocorra naturalmente, sem crises nem desespero.
As decisões tomadas, cada vez mais, devem se distanciar das dúvidas e
dos erros. Nem sempre é possível voltar atrás.
Os vícios como, o subjetivismo, a presunção, a falsa modéstia, o
imediatismo, o descontrole emocional, a precipitação... são características que conduzem inevitavelmente ao erro e a derrota. A melhor forma para capacitar, é avaliar coletivamente as decisões tomadas e os resultados alcançados.
As decisões após terem sido tomadas são comunicadas para os interessados como síntese das discussões. Por isso seja em plenárias, assembléias ou mesmo em palestras, salvo em reuniões pequenas, um Sem Terra nunca fala sentado. É necessário que a voz saia livremente e possa derramar as palavras como gotas de perfume no ambiente, para todos ouvirem e sentirem nitidamente o que dizem os pensamentos.
Este aspecto da cultura, de valorizar pequenas coisas e detalhes, contribui para a formação da consciência das pessoas, que além de preparar as idéias, exercitam a oratória para comunicar-se corretamente. Fala-se alto, com sinceridade e de frente para as pessoas.

c) Cultivar a motivação
Podemos caracterizar como motivação, a energia que nos move para a
execução das atividades táticas. Mas a motivação também deve estar ligada à estratégia, porque ela significa motivo para agir. O motivo é a razão da existência da estratégia.
O fazer e o refazer são as fontes inesgotáveis da motivação. É ali que se combinam necessidades com aspirações, como a sede da gente e a água a ser retirada no fundo poço. Esta relação deve ocorrer diariamente, para que os sonhos não adormeçam. A motivação sonolenta é lenta, e o sono jamais deixará que os sonhos corram livremente na frente para anunciar que estamos chegando onde queríamos.
A motivação assemelha-se ao relâmpago e o trovão. Ambos tem a mesma causa e saem juntos da mesma nuvem, mas o relâmpago vem na frente com sua energia clareando o caminho, o trovão vem atrás fazendo barulho.
O isolamento, o comodismo, a preguiça, a falta de maturidade, a indefinição ideológica e estratégica, o acúmulo de derrotas, a falta de condições para o trabalho, a insegurança, a falta de criatividade e as péssimas companhias, medrosas e covardes, são elementos que fazem minguar a motivação, como uma doença que não sara e nem mata o paciente. Este fica por longos anos, quase que indiferente, convivendo, deixando escapar seus fracos rugidos, até que um dia se despede.
A organização que tem seus objetivos definidos conscientemente e luta diariamente para alcançá-los, não terá grandes dificuldades para manter a motivação de seus componentes. Um exemplo típico vem do menchevique
[1] Dan quando analisava Lenin, preocupado que “iria destruir o partido” disse: “Porque não existe outro homem que durante 24 horas por dia esteja ocupado com a revolução, que não tenha outros pensamentos a não ser a revolução, e que mesmo ao dormir só veja revolução. Com um homem assim não há nada a fazer.”
Na luta pelos objetivos estratégicos, encontra-se respostas para os problemas imediatos. Através da visão universal, é possível elevar a motivação, porque embora às vezes estejamos perdendo em algum lugar, em tantos outros estamos ganhando e levando em frente a obra da libertação da classe trabalhadora.
Os objetivos estratégicos devem ser divulgados entre todos os participantes da organização e também para fora, isto leva à defesa consciente e a orientação coletiva das atividades que se desenvolvem. O intercâmbio, a comunicação e a interligação das ações, é a demonstração do avanço da consciência e o fortalecimento da solidariedade.

d) Cuidar das virtudes
O respeito dado a uma organização por quem não faz parte dela, é
essencialmente pelas virtudes que esta possui, dentre elas estão a coerência e a disciplina.
A disciplina é mais do que cumprimento de normas, e a coerência é mais
do que observação de alguns princípios, ambas são atitudes permanentes de extremo respeito ao direito e a vontade da maioria.
Este respeito eleva a qualidade da consciência política das pessoas que acreditam ardentemente em objetivos comuns realizáveis.
Através da disciplina e da coerência, vai-se criando uma identidade mútua entre o ser da organização e o ser das pessoas, que fazem parte dela. Ao mesmo tempo que se vê um, está-se vendo o outro, como se fossem os dois lados da face de um ser humano.
A imagem pública da organização são seus militantes, seus símbolos e seu potencial de mobilização e as virtudes que conformam seu comportamento. O medo que as vezes algumas pessoas de fora tem da organização, é porque ainda não conhecem suficientemente suas qualidades.

e) Dedicar-se integralmente
A dedicação total é a entrega que tanto a massa quanto as lideranças fazem nesta busca da realização dos objetivos, sem medo de perder. Quem tem medo de perder vacila nos momentos de risco. Quem tem certeza do que quer não pode vacilar.
Independentemente das condições que se tem, é preciso dedicar-se de corpo inteiro para realizar as atividades. Buscar sempre, voluntariamente superar as metas estabelecidas.
Neste sentido, é que entra o espírito de sacrifício que não significa martirizar-se, privando-se das facilidades e coisas agradáveis da luta. Tudo o que é bom, pertence a todos, e por isso deve ser dividido entre todos. O comodismo, a inveja, a corrupção, a aceitação de privilégios, a supervalorização dos cargos, o autoritarismo, a mentira, o comodismo e a gula, são inimigos mortais do espírito de sacrifício.
Encontramos esta coerência em muitas passagens da vida do “Chê” como esta na ocasião em que seus pais queriam viajar da Argentina para Cuba, para conhecer a mais nova neta Aleidita. Quando Hilda, uma companheira, lhe pergunta porque não ajudava seus pais pagando-lhes as passagens, recebe uma resposta dura. “Então”, disse ele, “você está entre os que não acreditam que vivo com um salário fixo e acham que posso usar os recursos públicos como quiser!”
Sem dedicação consciente em qualquer circunstâncias, é impossível manter a coerência até o fim. As ofertas e as concessões no caminho são muito tentadoras e o corpo e o ego humano, gostam de afagos e falsos elogios.

7 – ESPONTANEIDADE DA CONSCIÊNCIA
A formação da consciência está ligada ás questões organizativas, dos núcleos, setores e instâncias do movimento, quanto mais elevada a consciência mais consistência orgânica teremos internamente.
A formação e desenvolvimento da consciência portanto, está ligada ao meio e as relações que se estabelecem entrem as pessoas, em vista de algo a ser alcançado ou construído, individual ou coletivamente. Os objetivos que queremos alcançar nos imprimem características próprias. Se o indivíduo pretende ser pastor o meio que ele freqüenta e as características que ele adquire estão voltadas para a formação de deste caráter específico.
A consciência ideológica é formada por elementos ideológicos. Estes elementos são concretos, signos, que recebem um conteúdo diferente e movem as pessoas ao utilizá-los, ou então ao se dirigir a ele.
A ideologia é algo que vem do exterior, do ser humano para dentro a partir da significação das coisas que adquirem um conteúdo ideológico próprio em vista da ação política.
A ação política é aquela que ataca a estrutura dos problemas, dirigida contra àqueles que os defendem.
A consciência está vinculada à qualidade da organização.

1º) – Consciência espontânea
A consciência no seu NÍVEL INFERIOR não se forma por elementos ideológicos, tem por isso um objetivo, meramente econômico, “interesseiro”, individualista.
A sua natureza está voltada para as necessidades imediatas, por isso quando se fala em projeto político, para nossa base, nos deparamos com algumas deficiências que caracterizam a consciência espontânea. Como:
a) Incapacidade de investigar e definir teoricamente. Isto leva ao enfraquecimento da visão do movimento interno das contradições. Pode-se com isso, pelo movimento espontâneo, crescer em quantidade, mas não em qualidade. Semelhante a uma bola que recebe um impulso para subir sem controle. Enquanto sobe, os atletas observam para ver onde vai, quando começa a cair, prostram-se para recebê-la estaticamente.
O impulso inicial da bola, teve acerto de circunstâncias, a caída dela está intrinsecamente ligada à subida. Se ela cair nos pés de um companheiro que sabe o que fazer com ela ganha-se qualidade, se ela cair nos pés do adversário receberá um impulso contrário que terá o efeito planejado por ele.
Isto tudo é decorrente da visão localizada e particularizada das coisas
.
b) Há confusão entre linha política com táticas. ( repete-se a mesma coisa da mesma maneira). Deve haver combinação entre ambas mas, jamais confusão entre si. A mudança de momento político exige uso de novas estratégias e táticas na colocação das forças.
c) Experimentação espontânea das iniciativas ( política de risco) Se a direção for espontânea, passa para a massa uma consciência espontânea, se for consciente passa para a massa uma consciência teórico- ética, criadora de valores históricos.
Valor é a prática da ética. Aplicação do juízo político ideológico da ética.

2º) – Espontaneidade do método
De nada vale a direção ter consciência dos objetivos e saber estabelecer as táticas para alcançá-los, se a massa carrega dentro de si elementos de espontaneidade como: indisciplina, preguiça intelectual, desmotivação, desestruturação ( anárquica) e não os compreende. Isto leva a ambos, a dois desvios políticos metodológicos:
a) Oportunismo – age para si e não para o objetivo coletivo. Por isso só age quando a oportunidade é favorável para si.
b) Realismo – Separa o objetivo do sujeito. A necessidade solucionada a qualquer preço sem valorização do aspecto humano de crescimento e respeito em si. O carro está ligado à preparação do motorista. Existe carro e existe motorista, mas separados não há transporte.Com isso aparecem as deficiências:
- Dos planos confundir-se com tarefas imediatas. Para definir novas tarefas precisa voltar a reunir. Quando o plano projeta as tarefas e possibilita estabelecer uma relação permanente entre a decisão e o executor. Por isso executa conscientemente e cria a própria execução. Plano é igual planta o que se faz prepara as condições para ir em frente.
- Confundir ainda cursos com aprendizado teórico. Todo conhecimento é orgânico. Teoria e prática são esforços das duas faces do conhecimento.
- As análises voltarem-se sempre para o “ego ferido” sem considerar que a tática foi derrotada e prepara com ela mesma, o troco.
- A força tender a suplantar a inteligência como se a massa não precisasse de consciência, apenas de comando.
- A revolta substituir a ideologia. Desconhece as conseqüências e o processo de mudança onde se poderia envolver outros aliados.
- A causa principal se obscurece e desponta a força do interesse imediato.
Com isso vem o desgaste que trás o desânimo e a apatia.
A espontaneidade no momento está em relação a ocupação pela pouca massificação, sem saber como sair dela. Mas continuamos aplicando o mesmo método e a mesma tática, sem interrogar sobre a natureza da massa, seu estado de espírito e interesse em lutar.
3o – Pensamento sectário
“É aquele em que se acredita poder fazer certas coisas mesmo quando a situação política militar mudou”
Os problemas se resolvem a partir da sua compreensão debatendo os limites da tática. A tática é uma construção orgânica permanente.
Pode-se pensar em modificar o método de direção mexendo-se na estrutura, mas o método de investigar e construir é tão importante quanto o de dirigir.
Ao mesmo tempo que há consenso, logo em seguida pode haver divergências e ocorrer divisões.
Por fim, a consciência está liga á existência por ser produzida por ela. Ao mesmo tempo em que produzimos, nos produzimos. Ao mesmo tempo em que organizamos nos organizamos. E ao mesmo tempo que fazemos a revolução,nos fazemos revolucionário.

Ademar Bogo
Junho de 2001